Existe hoje um profundo medo de se envolver, de amar. A tentativa é de construir um escudo e se esconder atrás dele. Homens e mulheres aproximam-se esperando pouco apoio e ternura, e mesmo quando lhes são oferecidos têm medo de aceitar. Por isso, muitas vezes acabam com menos do que esperavam. Isso provoca uma sensação de desapontamento constante, podendo levar à decisão de não se apegar, não se ligar, o que significa nem ser protetor, nem ser protegido. Transar, desempenhar mas não se envolver, é a forma perfeita de não reconhecer os próprios sentimentos. Quando uma pessoa enterra os sentimentos, começa a viver de forma automatizada, e mais e mais passa a ter esse tipo de "sensação desligada". Pensa que o ideal é se perceber como uma máquina que simplesmente "liga e desliga", acende e apaga.
Para evitar futuras desilusões, cada vez mais as pessoas se aproximam esperando receber e dar pouco apoio e ternura. Agem como uma máquina que ”liga” e “desliga”. “Ficam”, mas não se envolvem, e acabam reprimindo os sentimentos.
Alguns vêem o envolvimento emocional como o caminho mais curto para o desastre e acham que o "ficar" é a salvação. Portanto, sentir é um perigo, algo arriscado, e a meta é se proteger do envolvimento, encontrar uma saída. As mais conhecidas são duas: uma é "ficar frio", insensível, e a outra, exatamente o contrário, se atirar de cabeça, mergulhar na hiperestimulação.
Como alguém pode ficar insensível? Todos sabemos que nossos sentimentos podem ir se congelando lentamente ou, às vezes, até se solidificar de uma hora para outra, mas também sabemos que não é possível descongelá-los num forno de microondas. Por esse motivo, é fundamental compreendermos porque resolvemos parar de sentir. Como diz Sam Keen em seu livro A Fronteira Interior (Editora Saraiva), " o hábito de reprimir os sentimentos é profundo. Isso porque, em algum momento , em geral na infância, fomos decepcionados, frustrados e rejeitados de alguma maneira. A resposta automática ao sofrimento é o recuo, é se proteger, tentar fugir " . Essa é a lógica da dor. A mente e o corpo se mobilizam para minimizar o sofrimento, influindo a memória de dores passadas, para evitar as futuras. Entretanto, perdas, decepções, fracassos são inevitáveis.
Ou decidimos encarar a dor ou nossa aventura de sentir termina aí. Já outros ficam fixados na maneira oposta de agir: ficam "ligados" sempre. Tornam-se viciados em excitação, vão de um lado para outro, se deslocando sem parar, só agitando. Sua vida parece um aeroporto onde acontecem vários eventos simultaneamente. Pessoas estão sempre entrando e saindo, chegando e partindo. Acontece que a vida não é sempre excitante. Se insistirmos em ficar eternamente borbulhantes, teremos de fabricar muito entusiasmo falso.
É arriscado cultivar o apetite pela sensação pura, pela excitação permanente. Todos precisamos entender a diferença entre sensação e sentimento.
* Maria Helena Matarazzo é sexóloga
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